terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O cheiro da história destruída



Por Stela Guimarães

Dez dias após a inundação de São Luiz do Paraitinga, embuti-me de coragem para ver de perto a cidade que entrara na minha vida e permanecera nos meus estudos e coração desde o final dos anos 90. Fui levada para o município pela necessidade do olhar empírico de pesquisadora aliado ao amor a cidade e as pessoas que lá me acolheram tantas vezes e acabaram permanecendo na minha vida como amigos queridos.
A viagem solitária de ida até o município arrasado pelas chuvas da virada do ano pareceu-me infinitamente mais extensa que qualquer outra já realizada. Temi pela minha própria reação diante da imagens dos destroços e somente uma reflexão mais altruísta fez-me ter coragem de prosseguir pelos quase 150 km que separam Jacareí (SP) daquela cidade.
Pensei o quanto era difícil para os moradores enfrentarem, no dia a dia, aquele cenário de destruição exibido pelas tevês. Esse pensamento abrandou o sentimento de repulsa e interrompeu meu chororô de viajante que, aquela altura, já me atrapalhava dirigir.
Apeguei-me a vontade de ver meus queridos amigos Lelis e Benito. Era fundamental lhes dar um abraço. Fui receber consolo dos braços de quem era consolado.
Da ponte de acesso ao centro, de onde soltei bolinhas de sabão numa brincadeira infantil póstuma, lá pelos idos dos meus vinte anos, vi pela primeira vez após a tragédia as marcas da correnteza do ainda bravo rio Paraitinga.
Percebi ter mudado minha visão sobre o rio para um misto de medo, raiva e respeito. Fomos nós, seres humanos, que invadimos seu espaço, provavelmente pela visão ingênua na época colonial do controle da natureza. “Mas o preço pagado agora foi muito alto, rio Paraitinga”, resmungei para as águas barrentas.
Sob o forte calor, prossegui caminhando pelas ruas do centro. Sem a mediação asséptica da tevê meus sentidos captaram elementos intangíveis da enchente. O mais marcante deles foi o odor tão forte e indecifrável que ‘batizei’ como “o cheiro da história destruída”.
Uma mistura de lama, produtos em decomposição, carniça, madeira molhada e pó pareciam grudar nas minhas narinas enquanto eu caminhava pelas ruas lotadas de entulho. Adicione a essa composição uma memória olfativa de algo salgado. "Talvez seja cheiro de lágrima", pensei.
Esse odor causou-me um impacto emocional tão intenso quanto as imagens de destruição vistas adiantadas para nossos olhos pelas tevês.
Foi uma sensação estranha, pois a secular São Luiz costumava cheirar à felicidade. Exceto nos últimos dias de Carnaval, quando foliões pouco educados deixavam sua marca fétida na cidade pelo cheiro de urina (especialmente nas áreas mais próxima do rio).
Mas o cheiro ácido da época carnavalesca, outrora insuportável, tornou-se tão menos intenso diante daquele inspirado por mim no último domingo. E se tristeza pode exalar algum odor, eu a encontrei nos escombros dos casarões de São Luiz do Paraitinga. Triste é o cheiro da história destruída.




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